Budô – o caminho do autoconhecimento

No karatê-dô, o zenkutsu-dachi representa o caminho do avanço consciente. O punho segue à frente, mas é a mente disciplinada que conduz a verdadeira força © © Imagem gerada por IA / Global Comunicação

Das limitações do corpo à compreensão do tempo, do espaço e do equilíbrio, o Budô oferece ao praticante uma rara oportunidade de conhecer a si mesmo por meio da experiência marcial.

Por Fernando Malheiros Filho
Curitiba, 15 de junho de 2026

Acima de qualquer outro propósito, as artes marciais devem apontar para o autoconhecimento. Mas é justo indagar como isso é possível através da arte de lutar? Quais seriam os caminhos que nos levam a esses estratos mais recônditos e profundos de nossa própria natureza e permitem, nos limites do possível, saber a verdade, aquela que em nós viceja e que não está disponível nas águas rasas da superfície?

Já escrevi sobre o Gendai Budô que, em contrapartida ao Koryū Budô, passou a ser praticado no Japão a partir da Restauração Meiji (1868), quando, após quase três séculos de dominação samuraica, ofereceu às artes marciais a solução de sobrevivência: o propósito era desarmar os espíritos, e a solução encontrada foi a conversão da prática marcial em educação.

No antigo regime (Koryū Budô) o propósito era muito mais objetivo e funcional: a formação de soldados preparados para morrer. Daí a influência que, além de outras confissões, o Budismo-zen passou a ter, o qual planta no praticante o reconhecimento da evanescência e temporariedade da vida.

Nascemos para morrer, é a lei do Universo, da entropia, postulado da 2ª Lei da Termodinâmica (tudo tende ao caos, ou caminhamos, inexoravelmente, da ordem para a desordem; a vida entendida como uma forma de ordem).

Era necessário habituar os samurais guerreiros à morte gloriosa, em batalha. Aliás, nunca foi muito diferente, em relação aos soldados, no Ocidente, mas esta é outra história. É certo que a morte gloriosa, no fragor do embate somente poderia ser sentida pelos que sobrevivem. Os que morrem, quando não bafejados pela sorte da morte rápida, são lacerados por enormes e indizíveis sofrimentos. Era necessário que uma doutrina preparasse o homem a enfrentar tal desafio: matar ou morrer, e se morrer, que seja com glória e respeito.

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O cenário mudou na restauração Meiji. As artes marciais, criadas para formar soldados, quase foram erradicadas. Não interessava a formação de irredentos que sequer temiam a morte. A aceitação não foi pacífica, como nos conta a conhecida Guerra Boshin, mas o novo tempo se impôs: as artes marciais deveriam deixar o campo de batalha e se homiziar nas escolas. Passaram a ter importância na formação de jovens, zelar pela saúde e prover o desenvolvimento moral. Tinham valores a oferecer depois de tantos anos em guerra, e que poderiam ser adaptados aos tempos de paz.

Vários professores notabilizaram-se nesse período, quando a prática pura Jitsu (術) deu lugar ao Dô (道), ao caminho, à senda, ao encaminhamento do praticante em direção aos mistérios da existência, nessa confluência do físico com o mental e o espiritual.

Mas há muito a explorar e, de meu ponto de vista, estamos ainda longe de uma fórmula que possa ser plenamente implementada neste fecundo – e necessário – caminho para o autoconhecimento.

Como é possível saber de si mesmo na arte de lutar?

É razoável que alguma perplexidade possa ser despertada nessa insólita equação: como é possível saber de si mesmo na arte de lutar? Contudo, vencidas as camadas mais superficiais da personalidade, o que é inegavelmente possível pelo treinamento, logo se apresentam os estamentos mais abaixo, em sua natureza e consistência que poucas outras atividades humanas são capazes de descobrir.

A primeira constatação é a dificuldade do aprendizado corporal. Essa complexidade diz muito sobre o funcionamento do cérebro, da mente e da relação de ambos com o corpo. Descobrimos que não estamos em relação senhorial com esse ente material em que habitamos. É necessário descobri-lo, e não somente vencendo sedentarismo, mas compreendendo as forças e as variáveis que comandam a movimentação corporal.

Entender o funcionamento do corpo em muito transcende a simples habilidade física, os gestos, o ato, ou sequência de movimentos, que aos que olham podem parecer mágicos. Não há qualquer garantia de que o praticante habilidoso realmente possa despertar o autoconhecimento – pode simplesmente representar sua condição inata.

“Desde o nascimento, lutamos contra o desequilíbrio sem conhecê-lo.”

Há muito mais. O corpo, para o ser humano, é a medida de todas as coisas. Não à toa somos duais: refletimos a dualidade intrínseca do corpo humano e a projetamos na compreensão da natureza, e dos outros. Essa dualidade deve ser compreendida e transcendida. Um exercício mental que a prática marcial nos oferece a todo momento.

Adiante começamos a entender as demais influências que formam o cenário fenomênico que nos cerca e ao qual estamos inevitavelmente integrados. Compreendemos a importância do tempo e do espaço, elementos essenciais e formadores do que convencionamos chamar de Universo. E nos integramos ao tempo em porções infinitesimais quando aplicamos velocidade aos movimentos, que devem ser compreendidos em cada instante de sua trajetória, por minúsculo que seja. Encurta-se o espaço e o tempo; e espaço-tempo é o tecido de que é feita a realidade física.

O equilíbrio como elemento central

Em sequência, descobrimos que alguns valores relevantíssimos na vida em sociedade, mas também pessoal a qualquer um, podem ser compreendidos e exercitados na prática marcial. O equilíbrio é o elemento central que pode evitar temporariamente o caos que a 2ª lei da termodinâmica demonstrar ser inevitável. Desde o nascimento, lutamos contra o desequilíbrio sem conhecê-lo. Quanto mais cedo cedemos à tentação desse demônio, mais rápido sucumbimos. O equilíbrio passa a ser o elemento central da prática, gerando no praticante a consciência de seu valor e, principalmente, como alcançá-lo.

Alguém redarguirá que há diferenças entre o equilíbrio corporal e o dos demais equilíbrios abstratos (equilíbrio mental e emocional, administrativo, financeiro, político, institucional etc.), mas posso afirmar que representam faces diversas na mesma figura geométrica e que pode ser resumida simplesmente ao equilíbrio.

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Também, ao praticar, experimentamos e desenvolvemos as emoções, aquelas que nos servirão ao desempenho de todas as funções que se pode esperar de um ser humano. Sentimentos múltiplos a prática pode produzir: a dor, o cansaço, o desânimo, a frustração, mas logo depois, quando, paulatinamente, os objetivos vão sendo alcançados, a gratificação, o reconhecimento e, por fim, a plenitude.

Da mesma forma, sentimos e apuramos aquilo que o entorno oferece. Sentimos os efeitos da gravidade, essa força (sim, sei que a gravidade não é uma força, mas seu tratamento como tal está consagrado) universal que comanda o firmamento, mas logo percebemos a complexidade de que a evolução nos dotou, com a aplicação das demais forças que presidem tudo e todos.

Descobrimos que somos agentes desse concerto universal e que estamos aptos à interação, com o exercício constante de todas as potencialidades disponíveis, aquelas que afirmam a vida, à frente de todos os sentimentos humanos menores que teimam em habitar os espíritos enfraquecidos pela desorientação.

A escola do Budô

Por fim, aceitamos a ação do tempo e sua inevitabilidade. Compreendemos que o envelhecimento sobrevém àqueles que sobrevivem, e é necessário domá-lo, no quanto a prática marcial (posso dizê-lo) serve de eficiente compensação.

Mas esse tipo de “escola”, aquela a qual as artes marciais japonesas foram (felizmente) relegadas pela Restauração Meiji, exige professores qualificados, que reconheçam essas potencialidades e saibam desenvolvê-las.

De professores que, acima de tudo, se revistam da batina própria a tal sacerdócio e lutem para encontrar, em si, na realidade que os cerca esse caminho difuso, mas que está lá, aguardando seus transeuntes.