28 de junho de 2026
O Paulista Sub 13 entrou para a história ao registrar, pela primeira vez, maior número de inscrições femininas © Alessandra Maeda
Há acontecimentos que somente o tempo revela em toda a sua dimensão.
No instante em que ocorrem, parecem representar apenas mais um dado estatístico, mais um campeonato encerrado ou mais uma edição de um calendário esportivo. Anos depois, porém, passam a ser reconhecidos como pontos de inflexão capazes de marcar o início de um novo ciclo de transformação.
O Campeonato Paulista Sub 13 de Judô pode ter proporcionado exatamente um desses momentos.

Os resultados conquistados pelas atletas brasileiras no cenário internacional inspiram novas gerações de judocas © Alessandra Maeda
Realizada pela Federação Paulista de Judô (FPJudô), no Esporte Clube Pinheiros no dia 21 de junho, a competição entrou para a história ao registrar, pela primeira vez no judô brasileiro, maior número de inscrições femininas do que masculinas. Foram 176 meninas e 163 meninos, um feito inédito que transcende a simples contagem de atletas para revelar mudanças profundas na formação da modalidade.
Mais do que estabelecer um recorde, o campeonato apresentou um indicador que merece ser observado atentamente por todos aqueles que acompanham a evolução do judô nacional. Afinal, durante décadas, a predominância masculina foi uma característica praticamente absoluta nas competições da base. O cenário observado em São Paulo rompe esse paradigma e levanta uma pergunta inevitável: estaria o judô brasileiro iniciando um novo ciclo de transformação?
A história do judô no Brasil nunca foi estática.

Na abertura do Campeonato Paulista Sub 13, Henrique Serra Azul Guimarães ressalta a importância da formação de base, alicerce do desenvolvimento do judô paulista e brasileiro © Alessandra Maeda
Ao contrário, foi construída por sucessivos ciclos de transformação que alteraram sua organização, ampliaram sua estrutura e redefiniram seus caminhos.
O primeiro deles nasceu com a chegada dos imigrantes japoneses, que trouxeram ao país não apenas uma arte marcial, mas uma filosofia de formação humana baseada na disciplina, no respeito e no aperfeiçoamento contínuo.
Nas décadas seguintes surgiu outro importante ciclo: a organização institucional da modalidade.
Nesse contexto, São Paulo desempenhou papel decisivo.

Muito antes das medalhas serem definidas, a cerimônia de abertura já reunia os protagonistas de um momento histórico para o judô brasileiro © Alessandra Maeda
Em 17 de abril de 1958, foi fundada a Federação Paulista de Judô. Em uma época em que ainda não existia uma entidade nacional específica para administrar a modalidade, a FPJudô passou a organizar competições, estruturar exames de graduação, formar professores, desenvolver árbitros e estabelecer procedimentos técnicos e administrativos que contribuíram para consolidar o judô brasileiro.
Na sequência vieram a Federação Mineira de Judô, fundada em 10 de junho de 1961, e a Federação Paranaense de Judô, criada em 7 de outubro do mesmo ano, ampliando a organização regional do esporte.

O árbitro João Manoel Costa Rocha comandou o rei inicial © Alessandra Maeda
Somente em 18 de março de 1969, quase onze anos após a criação da entidade paulista, nasceu a Confederação Brasileira de Judô (CBJ), responsável por assumir a organização nacional da modalidade, até então vinculada à Confederação Brasileira de Pugilismo.
Essa cronologia ajuda a compreender por que tantas iniciativas importantes surgiram inicialmente em São Paulo. Não por qualquer condição de superioridade, mas por fatores históricos objetivos.
O Estado concentrava a maior comunidade japonesa fora do Japão, possuía uma das estruturas esportivas mais desenvolvidas do país, reunia elevado número de clubes, professores e praticantes e promovia um calendário competitivo de grande abrangência. Esse conjunto de características transformou São Paulo em um ambiente naturalmente propício ao surgimento de experiências que, posteriormente, seriam incorporadas ao desenvolvimento do judô brasileiro.

A evolução da modalidade também passa pelo fortalecimento da presença feminina em todos os segmentos do judô © Alessandra Maeda
Ao longo de sua história, o Estado frequentemente funcionou como um verdadeiro laboratório da modalidade.
A fundação da Confederação Brasileira de Judô inaugurou um novo ciclo de transformação.
A partir da criação da entidade nacional, o judô brasileiro passou a contar com uma estrutura capaz de integrar as federações estaduais, organizar o calendário nacional, fortalecer a formação técnica e ampliar sua presença internacional.
Nas últimas décadas, especialmente sob a gestão do presidente Paulo Wanderley, a CBJ consolidou um modelo de administração reconhecido nacionalmente pela excelência em governança, planejamento estratégico, transparência, formação de recursos humanos e desenvolvimento esportivo.

Professora kodansha Marilaine Ferranti Antonialli, árbitra FIJ A, uma das principais referências femininas do judô brasileiro © Global Sports
Esse fortalecimento institucional permitiu que federações estaduais ampliassem seus próprios projetos de desenvolvimento, criando um ambiente favorável para o crescimento da modalidade em todas as regiões do país.
É nesse contexto que o recorde registrado pela Federação Paulista de Judô deve ser compreendido: não como um fato isolado, mas como resultado de um processo construído coletivamente ao longo de décadas pelo trabalho integrado entre clubes, professores, federações e Confederação.
Se os primeiros ciclos de transformação reorganizaram a estrutura institucional do judô brasileiro, o momento atual parece estar sendo marcado pelo fortalecimento da presença feminina.
Esse crescimento já não se limita aos tatamis.
Hoje, a presença feminina já se estende por praticamente todos os segmentos da modalidade, da arbitragem às comissões técnicas, da gestão esportiva à organização de eventos, além da formação das novas gerações de judocas.

O fortalecimento da base feminina amplia as perspectivas para o desenvolvimento técnico do judô brasileiro © Alessandra Maeda
Na FPJudô, esse movimento ganhou impulso com a criação da Comissão das Mulheres, presidida pela professora kodansha Marilaine Ferranti Antonialli, que também atua como coordenadora estadual de Arbitragem da Federação Paulista de Judô e integra a Coordenação Nacional de Arbitragem da CBJ.
O trabalho desenvolvido pela comissão acompanha as diretrizes estabelecidas pela Confederação Brasileira de Judô e pelo Comitê Olímpico do Brasil, buscando ampliar a participação feminina e oferecer um ambiente cada vez mais seguro, acolhedor e respeitoso dentro dos dojôs paulistas.

O crescimento da participação feminina é resultado do trabalho desenvolvido por clubes, professores, associações e projetos de formação © Alessandra Maeda
Segundo Marilaine, diversos fatores ajudam a explicar esse crescimento. Entre eles estão o desempenho das atletas brasileiras nas competições internacionais, que passaram a servir de inspiração para milhares de meninas; a mudança de percepção das famílias em relação ao judô feminino; e a construção de espaços onde meninas e mulheres podem desenvolver seu potencial esportivo com confiança e igualdade de oportunidades.
Ela lembra que, quando iniciou sua carreira como professora, na década de 1980, era comum encontrar famílias que destinavam o judô aos meninos e o balé às meninas. Hoje, essa realidade mudou profundamente.
Mais do que incentivar a prática esportiva, a Comissão das Mulheres atua para fortalecer uma cultura de respeito, autonomia e valorização da capacidade técnica das judocas, ampliando a presença feminina em todas as 16 Delegacias Regionais da Federação.

A comemoração simboliza um momento histórico: uma nova geração de meninas ocupa cada vez mais espaço nos tatamis brasileiros © Alessandra Maeda
Atuando em diferentes segmentos da modalidade, as profissionais ouvidas pela reportagem compartilham uma percepção comum: o recorde registrado no Campeonato Paulista Sub 13 não representa um fato isolado. Sob diferentes perspectivas, todas identificam sinais claros de que um novo ciclo de transformação começa a ganhar forma na base do judô brasileiro.
Atleta da classe Veteranos, técnica responsável pela formação de base do Umakakeba Dojô, faixa-preta sho-dan e mãe da judoca Maria Cecília de Moura Senra, faixa cinza, Juliana Talita de Lima Senra acredita que o crescimento da participação feminina também reflete mudanças comportamentais percebidas no dia a dia das categorias de base.

Sensei Juliana Talita de Lima Senra, técnica responsável pela formação de base do Umakakeba Dojô © Arquivo
“Tenho observado, com certa surpresa, que muitas meninas demonstram hoje um nível de dedicação, comprometimento e inteligência técnica bastante elevado. Elas chegam aos treinamentos muito motivadas, competitivas e determinadas a evoluir. Em alguns momentos, percebo entre parte dos meninos da mesma faixa etária um comportamento diferente, com menor interesse pela competição. Não sei exatamente quais fatores explicam essa mudança, mas é um fenômeno que merece atenção, não apenas no judô, mas também em outras modalidades e até mesmo em diferentes aspectos da formação dos jovens.”

O Paulista Sub 13 de 2026 poderá ser lembrado como um evento histórico © Alessandra Maeda
Para a árbitra aspirante à Federação Internacional de Judô (FIJ), Angela Cerqueira, o crescimento feminino também representa uma conquista construída fora das áreas de combate, permitindo que cada vez mais mulheres ocupem funções técnicas pela competência demonstrada ao longo de suas trajetórias.
Coordenadora de Judô Inclusivo da FPJudô, Anna Paula Magalhães destaca o trabalho desenvolvido nas categorias de base, responsável por transmitir confiança às famílias e ampliar a participação das meninas nos dojôs.

Anna Paula Magalhães, coordenadora de Judô Inclusivo da Federação Paulista de Judô © Global Sports
A fisioterapeuta da FPJudô e atleta veterana Nádia Ramos considera simbólico presenciar, pela primeira vez em sua trajetória iniciada aos oito anos de idade, uma competição com predominância feminina nas inscrições.
Para Maria Sabbo, técnica do Clube Paineiras do Morumby, esse fortalecimento da base tende a produzir reflexos importantes nas futuras categorias Sub 21 e Sênior.
A delegada regional da 6ª Araraquarense, Ana Paula Feltrin associa esse crescimento ao aumento da procura pelo judô como ferramenta de formação, desenvolvimento pessoal e autoconfiança.

Ana Paula Feltrin, delegada regional da 6ª Delegacia Regional Araraquarense da Federação Paulista de Judô © Global Sports
Já Mariana Barros, técnica do SESI-SP, acredita que os excelentes resultados conquistados pela Seleção Brasileira feminina nos últimos anos exercem papel decisivo ao inspirar novas gerações de atletas.
A percepção observada nas categorias de base em São Paulo também encontra respaldo na direção nacional da modalidade. Para a vice-presidente da Confederação Brasileira de Judô (CBJ) e responsável pela Comissão de Mulheres da entidade, professora kodansha hachi-dan (8º dan) Solange Pessoa de Almeida Vinck, o crescimento da participação feminina representa um dos sinais mais promissores para o futuro do judô brasileiro.

Solange Pessoa de Almeida Vinck, vice-presidente da Confederação Brasileira de Judô e responsável pela Comissão de Mulheres da CBJ © Alessandra Maeda
“Essa classe é extremamente importante e promissora. O fato de termos mais meninas envolvidas na disputa reflete o trabalho consistente desenvolvido por clubes, associações, escolas e projetos voltados à formação em todo o país. É justamente nas categorias de base que surgem os grandes talentos, formados não apenas para conquistar resultados, mas também dentro dos valores que fazem parte da essência do judô, como disciplina, respeito e superação.
Ver as meninas superando os meninos em número de participantes nos enche de esperança. Esse crescimento demonstra que estamos ampliando oportunidades, fortalecendo a participação feminina desde a base e construindo um futuro cada vez mais sólido para o judô brasileiro.”
Se os números registrados no Campeonato Paulista Sub 13 sugerem uma mudança na base da modalidade, os resultados da Seleção Brasileira feminina demonstram que essa transformação já produz reflexos no mais alto nível do esporte.
Considerando os quatro últimos ciclos olímpicos, de Londres 2012 a Paris 2024, as judocas brasileiras conquistaram sete medalhas individuais, contra cinco obtidas pelos homens.

Determinadas e aguerridas, as meninas protagonizaram grandes combates nos tatamis paulistas © Alessandra Maeda
Mais significativo ainda é o fato de que os três ouros olímpicos conquistados pelo Brasil nesse período tiveram assinatura feminina. Sarah Menezes, em Londres 2012, Rafaela Silva, no Rio de Janeiro 2016, e Beatriz Souza, em Paris 2024, transformaram-se em referências para milhares de meninas que hoje ingressam nos dojôs brasileiros.
Não por acaso, várias das profissionais ouvidas pela reportagem apontam justamente esse protagonismo internacional como um dos fatores que ajudam a explicar o crescimento da participação feminina nas categorias de base.

Henrique Serra Azul Guimarães encerra a competição antes do rei final © Alessandra Maeda
E, como ocorre em todos os grandes ciclos de transformação, talvez somente o tempo revele a verdadeira dimensão do momento que começou a ser escrito lá atrás, no Campeonato Paulista Sub 13 de 2026.
Talvez o aspecto mais importante desse feito histórico seja justamente aquilo que ainda não pode ser medido.
Os números revelam um momento. A história mostrará seu significado.
Ao longo de quase sete décadas, o judô brasileiro foi moldado por sucessivos ciclos de transformação. Alguns reorganizaram sua estrutura institucional. Outros elevaram seu padrão técnico, administrativo e esportivo.

A alegria do pódio eterniza um dia inesquecível para essas jovens judocas © Alessandra Maeda
O Paulista Sub 13 talvez tenha revelado o início de um novo ciclo. Um ciclo em que o crescimento da participação feminina deixa de representar uma tendência para tornar-se uma realidade observável.
Se essa transformação ganhará dimensão nacional, somente os próximos anos poderão responder. O que já se pode afirmar é que, pela primeira vez, a história registrou um fato inédito nos tatamis brasileiros.

Entre medalhas e abraços, o judô também constrói amizades para a vida toda © Alessandra Maeda
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