Critérios da comissão técnica para avaliar atletas e definir a seleção brasileira para o Mundial Júnior

Marcus Agostinho e Douglas Potrich detalham os critérios de avaliação e preparação da seleção brasileira para o Mundial Júnior © Imagem gerada por IA / Global Comunicação

Em São Bernardo do Campo, Douglas Potrich e Marcus Fábio Agostinho explicam como desempenho, intensidade, repertório técnico, leitura de combate e atitude mental entram na preparação dos judocas brasileiros para o principal desafio internacional da temporada.

Por Paulo Pinto / Global Sports
Curitiba, 19 de outubro de 2026

O CBI: Troféu Brasil BNDES de Judô Júnior, realizado de 24 a 27 de setembro, no Ginásio Poliesportivo Adib Moysés Dib, em São Bernardo do Campo (SP), encerrou uma etapa decisiva da avaliação dos atletas que disputam vaga na seleção brasileira para o Campeonato Mundial Júnior. Além das medalhas e das colocações, a comissão técnica acompanhou como os judocas construíram seus resultados, responderam às dificuldades e empregaram seus recursos diante de adversários de diferentes características. O Mundial será realizado de 19 a 22 de novembro, em Tashkent, no Uzbequistão.

Presentes à competição, os professores Douglas Potrich e Marcus Fábio Agostinho, integrantes da comissão técnica das seleções de base da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), observaram um conjunto de aspectos que ajuda a dimensionar a distância entre o desempenho nacional e as exigências internacionais. O evento também contou com a presença do presidente da entidade, professor Paulo Wanderley, e de integrantes da estrutura central da Confederação.

Nas entrevistas concedidas durante o Troféu Brasil, os treinadores detalharam o que procuram identificar nos atletas, como interpretam a passagem da classe júnior para a sênior e quais cuidados consideram necessários na preparação para o Mundial. As respostas mostram que a avaliação envolve tanto a execução das técnicas quanto a capacidade de criar condições para aplicá-las, administrar o combate e tomar decisões sob pressão.

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Esse trabalho integra a estrutura de seleções da CBJ, dirigida por Marcelo Theotonio, gerente de Alto Rendimento e diretor de seleções da CBJ, e depende da articulação entre a comissão técnica nacional e os clubes. É nesse relacionamento que precisam se encontrar o planejamento da seleção, as necessidades individuais dos judocas e a rotina de preparação conduzida pelos professores que os acompanham diariamente.

Uma observação que alcança as próximas temporadas

Embora o Mundial Júnior seja o compromisso imediato, o acompanhamento de uma competição nacional dessa dimensão também permite observar atletas que ainda estão construindo seu espaço. A presença de judocas de diferentes estágios de desenvolvimento amplia o alcance da avaliação e oferece referências para a continuidade do trabalho nas próximas temporadas.

Douglas Potrich: “O atleta precisa ser capaz de enfrentar as maiores dificuldades, encontrar as melhores soluções e tomar as melhores decisões durante o combate” © Global Sports

O treinador gaúcho, Douglas Potrich explica que o olhar da comissão não se limita aos nomes mais próximos da convocação.

“Fazemos uma análise geral, que não envolve apenas os atletas que já estão na reta final do processo, mas também a compreensão do desenvolvimento como um todo. Observamos os atletas mais jovens, que vêm evoluindo e se destacando, já pensando também em 2027, 2028 e nos anos seguintes”, explica Potrich.

A aproximação entre as classes cadete e júnior exige atenção à maturidade apresentada em combate. A idade estabelece a categoria em que o atleta está inscrito, mas não descreve, por si só, o estágio de seu desenvolvimento técnico.

“Apesar de estarmos falando da classe júnior, temos alguns cadetes que já demonstram um nível técnico bastante maduro, aproximando-se da categoria júnior. Os próprios atletas juniores, inclusive os de primeiro ano, também vêm apresentando evolução. Por isso, precisamos pensar no processo como um todo. Fazemos, portanto, uma análise geral, e não pontual”, afirma Potrich.

Marcus Agostinho: “Quando está perdendo, precisa saber como lutar. Quando está vencendo, precisa entender como administrar o combate. Quando a luta está empatada, precisa saber como criar uma vantagem” © Global Sports

Para os atletas que ainda dependiam da avaliação técnica, o Troféu Brasil acrescentava informações a um acompanhamento já realizado ao longo da temporada. O professor Agostinho ressalta que as participações internacionais e os confrontos nacionais compõem uma base de comparação para a comissão.

“De maneira geral, tivemos bastante oportunidades internacionais. Acredito que boa parte dos atletas que ainda estão em análise técnica já teve a oportunidade de competir fora do país. Com o nível que temos aqui no Troféu Brasil e considerando também o Campeonato Brasileiro e o Troféu Brasil Sênior, conseguimos estabelecer algumas comparações importantes com o padrão esperado no cenário internacional.”

A análise, portanto, considera o percurso do judoca e as respostas que ele apresentou em situações competitivas distintas.

“Tivemos várias oportunidades de avaliação em competições nacionais de bom nível, o que nos permite analisar a possibilidade de esses atletas competirem internacionalmente”, acrescenta Agostinho.

Criar condições para impor o próprio judô

A experiência internacional coloca o atleta diante de formas de lutar que nem sempre encontra com a mesma frequência no circuito nacional. Reconhecer essas diferenças e adaptar suas ações sem perder as próprias características é parte do aprendizado necessário para enfrentar uma competição mundial.

Potrich aponta a compreensão tática como uma das prioridades desse processo.

“Sempre procuramos destacar um ponto de atenção muito importante: a questão tática, os diferentes padrões e estilos de judô que o cenário mundial apresenta. Tentamos proporcionar essa experiência aos atletas para que desenvolvam esse entendimento, aprimorem a leitura de combate e construam suas estratégias com o objetivo de neutralizar os adversários e impor seu próprio estilo de luta, explorando suas principais características e seus pontos fortes.”

Professor Marcus Agostinho orienta atletas em competição internacional © CBJ

A avaliação também precisa distinguir o recurso que o judoca domina daquele que consegue utilizar diante de resistência. Uma técnica bem executada depende de preparação, oportunidade e capacidade de sustentar as ações necessárias até chegar à posição desejada.

Agostinho identifica nesse encadeamento uma referência importante para comparar o desempenho brasileiro com o padrão internacional.

“Acho que o principal ponto que buscamos observar é a intensidade de luta, a intensidade da disputa de pegadas e a variedade de opções técnico-táticas durante o combate. Esses talvez sejam os aspectos mais importantes quando pensamos no padrão internacional.”

Na disputa de pegadas, o kumi-kata, estão algumas das condições que permitem organizar o ataque e dificultar a ação adversária. Para Potrich, esse trabalho está diretamente relacionado à possibilidade de o judoca fazer prevalecer suas características.

“A questão do kumi-kata é muito importante, principalmente do ponto de vista tático. Ela permite que o atleta consiga impor suas ações e explorar seus pontos fortes.”

O treinador associa essa capacidade à intensidade exigida nos confrontos internacionais. A dificuldade de chegar às posições de ataque pode impedir que o repertório técnico apareça durante a luta.

“Também precisamos considerar a intensidade de combate. No cenário mundial, ela é muito alta, e procuramos trabalhar esse aspecto constantemente, chamando a atenção dos atletas para que possam desenvolver seu jogo. Com uma intensidade baixa, o atleta não consegue chegar às suas posições mais fortes e colocar em prática aquilo que sabe fazer de melhor.”

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Para Agostinho, a disputa de pegadas deve ser analisada em conjunto com a eficiência ofensiva, as transições entre a luta em pé e o solo e o gerenciamento do confronto. Um desempenho pontual pode ser sustentado por uma qualidade muito desenvolvida; a continuidade da carreira exige uma formação mais abrangente.

“Acho que precisamos ter equilíbrio em todos esses aspectos. O atleta precisa apresentar uma boa intensidade no kumi-kata. No feminino, a transição é importantíssima, e o gerenciamento do combate é algo que tem nos preocupado cada vez mais, desde a categoria cadete até a sênior.”

Essa preocupação ganha peso quando a avaliação se volta à passagem para a classe principal.

“É claro que, em uma competição, muitas vezes o atleta consegue fazer uma excelente campanha mesmo tendo apenas alguns aspectos de destaque. Porém, quando pensamos nos juniores em transição para a categoria sênior, é importante que eles consigam alcançar um alto nível de equilíbrio em todos esses aspectos”, explica Agostinho.

A transição para o solo e a variedade de soluções

A continuidade entre o tachi-waza, a luta em pé, e o ne-waza, a luta no solo, ocupa um lugar específico na observação do judô feminino. A passagem de uma situação para a outra exige reconhecer oportunidades de ataque e responder rapidamente às iniciativas da adversária.

Agostinho relaciona essa atenção ao que acompanha nas competições internacionais.

“Cada vez mais, observamos a importância da transição no padrão internacional feminino. As atletas japonesas, por exemplo, destacam-se muito nesse quesito, mas também vemos atletas de outras nacionalidades buscando desenvolver o ne-waza.”

Professor Douglas Potrich orienta judocas durante treinamento de campo internacional realizado em Pindamonhangaba © CBJ

O treinador paulista situa esse aprendizado na aproximação entre as classes júnior e sênior. Para ele, a qualidade do trabalho no solo já faz parte das exigências enfrentadas pelas atletas que transitam entre os dois níveis.

“Hoje, quando pensamos na categoria júnior como uma etapa de aproximação da classe sênior, percebemos que algumas atletas já estão inseridas nesse contexto”, observa. “Isso é importante atualmente e continuará sendo por bastante tempo.”

A variedade de recursos também interfere na capacidade de avançar em uma competição longa, na qual cada adversário pode apresentar um problema diferente. Um caminho que funciona em uma luta pode ser bloqueado na seguinte, exigindo outra forma de construir a vantagem.

“Acho que voltamos às questões anteriores. Mais uma vez, destacaria a intensidade, a capacidade de gerenciar bem o combate e a variedade de recursos técnicos para resolver diferentes situações. O atleta que possui poucos recursos muitas vezes não consegue avançar tanto na competição e acaba dependendo dos erros do adversário”, analisa Agostinho.

Os exemplos apresentados pelo professor ajudam a traduzir essa exigência para situações concretas de combate.

“Quando você tem mais ferramentas para resolver diferentes situações, consegue enfrentar melhor um adversário que luta segurando mais, que busca impor a pegada por cima ou que adota uma postura mais defensiva. Tudo isso é importante. Portanto, os atletas que possuem mais recursos, digamos assim, geralmente conseguem avançar mais nas competições internacionais.”

O domínio técnico, nessa perspectiva, precisa se expressar diante de um oponente que procura restringir as possibilidades de ação. Questionado sobre a diferença entre possuir qualidade técnica e conseguir demonstrá-la durante o confronto, Agostinho sintetiza: “É preciso haver equilíbrio entre vários aspectos técnico-táticos”.

A exigência de um Mundial que se aproxima do sênior

A passagem pela classe júnior não ocorre de forma isolada do circuito principal. Parte dos atletas chega ao Mundial da categoria com vivência em competições seniores, o que amplia as exigências para quem pretende disputar uma medalha. Potrich considera indispensável levar essa realidade em conta na preparação.

“Primeiro, precisamos considerar que a classe júnior é muito forte no Campeonato Mundial. Vários atletas dessa categoria já são medalhistas em Grand Prix, Grand Slam ou até mesmo em Campeonatos Mundiais.”

Marcelo Theotonio e Marcus Agostinho conversam durante o Mundial Júnior de Lima 2025 © CBJ

Ao examinar os desafios internacionais, o professor destaca a necessidade de compreender as características dos adversários e preparar os brasileiros para responder a elas durante a luta.

“Dentro desse cenário, podemos fazer uma comparação com os atletas asiáticos e do Leste Europeu, que são adversários muito fortes e apresentam características marcantes em seus combates. Precisamos realizar um trabalho específico para enfrentar esses desafios, compreendendo as forças de cada adversário.”

Esse estudo precisa chegar ao atleta como uma capacidade de interpretação, para que ele consiga reconhecer o que está acontecendo e encontrar alternativas durante o confronto.

“Nosso trabalho consiste justamente em transmitir esse conhecimento aos atletas, para que desenvolvam a capacidade de fazer uma boa leitura de combate e encontrar soluções para as dificuldades que surgirem durante a luta”, explica Potrich.

Agostinho também atribui grande peso à capacidade de enfrentar judocas mais experientes. Ao recordar edições anteriores, menciona situações em que o currículo construído na classe principal não assegurou lugar no pódio júnior.

“Tivemos, por exemplo, atletas medalhistas em Jogos Olímpicos disputando o Campeonato Mundial Júnior. Na categoria feminina, houve atletas que já haviam conquistado medalhas olímpicas e que não conseguiram medalhar no Mundial Júnior.”

Jaciano Delmiro, vice-presidente da CBJ, Paulo Wanderley, presidente, e Marcelo Theotonio, diretor de seleções, acompanham o Mundial de Lima 2025: a presença do alto escalão da CBJ nas principais competições do calendário, apoiando atletas e trabalhando junto à comissão técnica, é uma marca importante da atual gestão da entidade © CBJ

O treinador ressalta ainda a importância estratégica atribuída à competição na trajetória dos atletas e nos rankings. Para a preparação, porém, há uma dificuldade adicional: nem todos os potenciais adversários foram encontrados nas atividades internacionais da classe.

“Sabemos que os eventos e estágios internacionais de juniores dos quais participamos dão bons indicativos da capacidade dos atletas para o Mundial Júnior. No entanto, também sabemos que eles podem enfrentar adversários que ainda não encontraram nessas competições e que atuam principalmente no circuito sênior. Por isso, certamente será uma competição de nível bastante elevado.”

Ajustes individuais e estudo dos adversários

A existência de prioridades comuns não significa que todos os convocados necessitem das mesmas intervenções. O trabalho de preparação precisa considerar as características de cada judoca e as dificuldades que podem aparecer nos confrontos de sua categoria.

Questionado sobre possíveis preocupações recorrentes, como punições, rendimento em lutas equilibradas, pegadas e eficiência no solo, Potrich evita estabelecer um diagnóstico único para a equipe.

“Cada atleta tem suas próprias questões individuais. Por isso, realizamos uma análise individualizada. Alguns atletas realmente precisam melhorar aspectos relacionados ao kumi-kata, tanto no ai-yotsu quanto no kenka-yotsu, para este Mundial.”

Douglas Potrich à beira do shiai-jô: o trabalho da comissão técnica começa na preparação e ganha expressão durante o combate, quando o olhar de fora ajuda o atleta a encontrar soluções que a pressão da luta dificulta enxergar © CBJ

A referência alcança situações em que os oponentes utilizam a mesma lateralidade de pegada, no ai-yotsu, ou lateralidades opostas, no kenka-yotsu. Identificar como cada atleta se organiza nesses confrontos ajuda a direcionar o trabalho técnico.

Na ocasião da entrevista, o encerramento da etapa nacional abriria espaço para uma preparação mais específica. Potrich descrevia um período de ajustes e de definição das prioridades para o Mundial.

“Ainda teremos um período de afunilamento, lapidação e direcionamento do foco para o Mundial. Os atletas acabaram de sair dos estágios internacionais do processo. Neste fim de semana, estamos encerrando o processo nacional. A partir disso, conseguiremos definir melhor o direcionamento do trabalho.”

O conhecimento dos possíveis adversários seria aprofundado à medida que a comissão dispusesse das informações sobre os participantes.

“Agora, precisamos lapidar os detalhes e entender quem serão os principais adversários no Campeonato Mundial. Já temos alguns deles mapeados, mas ainda precisamos da lista geral da FIJ para realizar esse afunilamento final. A partir daí, poderemos trabalhar de maneira mais específica, estudando os principais adversários e entendendo suas posições e o posicionamento nos quadrantes da chave.”

Marcus Agostinho acompanha cada movimento para transformar a leitura do combate em orientação: da preparação às decisões no shiai-jô, o treinador ajuda o atleta a reconhecer oportunidades e ajustar a estratégia diante das dificuldades © CBJ

Também permanecia em definição, naquele momento, a forma de anunciar os integrantes da seleção. Havia atletas classificados automaticamente e categorias que ainda dependeriam da análise da comissão e da gestão.

“Ainda não temos uma data definida para anunciar a seleção. Alguns atletas já estão classificados automaticamente, mas ainda teremos uma reunião com a comissão técnica e a gestão, logo após o encerramento do evento, para definir as convocações de algumas categorias e estabelecer os prazos”, informou Potrich durante o Troféu Brasil. “Talvez a convocação seja escalonada, ou talvez aconteça de uma única vez. Ainda vamos definir isso.”

A preparação passa pelo entendimento com os clubes

Entre a sequência de competições e a chegada ao Mundial, a organização das cargas de treinamento exige diálogo com quem acompanha os atletas em seus locais de preparação. Os clubes reúnem os treinadores e as estruturas de suporte que participam do trabalho cotidiano, enquanto a seleção estabelece as necessidades relacionadas ao compromisso internacional.

Potrich apontava a Copa Europeia Sênior de Málaga, na Espanha, como uma das atividades previstas após o Troféu Brasil. A competição foi realizada em 10 e 11 de outubro, seguida de treinamento de campo internacional. Na entrevista, o professor também apresentou a intenção de aproximar o acompanhamento da seleção da rotina dos clubes.

“Além disso, temos a intenção de realizar visitas técnicas aos clubes e organizar, em conjunto com eles, o planejamento das cargas de treinamento e os demais aspectos da preparação.”

Os treinadores Marcus Agostinho e Douglas Potrich com Lincoln Keiiti Kanemoto das Neves, analista de competições da CBJ © Global Sports

Esse entendimento envolve conhecer os objetivos de cada instituição e compatibilizá-los com a preparação dos judocas para o Mundial.

“Precisamos compreender as intenções e os objetivos de cada clube e alinhar essas metas para que todo o trabalho funcione de maneira integrada. Assim, poderemos oferecer o melhor suporte possível aos atletas e buscar o melhor resultado e a melhor performance no Mundial”, afirma Potrich.

Agostinho considera que o calendário percorrido até setembro tornava especialmente valioso um período de preparação nos clubes. A participação em diferentes classes de idade amplia as oportunidades competitivas, mas também precisa ser considerada na organização do trabalho seguinte.

“Até agora, os atletas passaram por muitas competições e enfrentaram um calendário bastante congestionado, participando, em muitos casos, de eventos das categorias júnior e sênior. Alguns atletas cadetes também participaram de várias dessas atividades.”

Na avaliação do treinador, a permanência por algumas semanas nos locais de origem permitiria reunir as diferentes frentes da preparação.

“Acreditamos que será importante que os atletas passem um período maior em seus clubes, tendo a oportunidade de se preparar internamente, com o acompanhamento de seus treinadores, a preparação física e todo o suporte interdisciplinar oferecido pelos clubes. Isso será importante para uma competição como essa.”

A participação da comissão nacional nesse período seria construída por meio do contato com os responsáveis pelo trabalho diário.

“Acredito que agora será um bom momento para que eles e elas estejam em seus clubes e tenham algumas semanas de preparação. Também vamos procurar estabelecer uma interação com os clubes e conversar com os técnicos para contribuir com o trabalho da melhor maneira possível”, acrescenta Agostinho.

Douglas Potrich ajusta a estratégia de combate durante a Copa Europeia Sênior de Málaga, na Espanha © CBJ

A realização de encontros preparatórios e o momento de reunir todo o grupo ainda não estavam definidos durante o Troféu Brasil. Entre as preocupações apresentadas pelo professor estava a adaptação às condições da viagem e ao horário do país-sede.

“É possível que existam outras oportunidades de integração entre a comissão técnica e os atletas. Certamente, vamos tentar chegar ao destino o mais cedo possível, dentro das possibilidades, para realizar os ajustes necessários, inclusive em relação ao fuso horário e ao jet lag.”

A concentração da equipe nas proximidades do Mundial aparecia como uma possibilidade, sem excluir outras atividades anteriores.

“Provavelmente, a integração de todo o grupo acontecerá mais perto da competição, já no próprio local, mas ainda é possível que ocorram outros encontros preparatórios. Essa questão continua em definição”, explicou Agostinho.

O equilíbrio mental para decidir durante a luta

O que permite reconhecer um atleta em condições de disputar uma medalha mundial? Ao responder à questão, Potrich apresenta a competitividade na classe sênior como uma referência relevante para avaliar o estágio alcançado pelo judoca júnior.

“Primeiro, precisamos avaliar se o atleta já é competitivo na classe sênior. Se um atleta júnior consegue competir em alto nível na categoria sênior, certamente começa a demonstrar condições de apresentar um bom desempenho em um Campeonato Mundial da classe júnior.”

Essa capacidade, contudo, precisa se sustentar nos momentos em que o combate impõe dificuldades. A dimensão mental aparece na avaliação do professor como parte essencial da execução esportiva: reconhecer o problema, escolher uma resposta e conseguir colocá-la em prática.

“A questão mental também é muito importante. O atleta precisa ser capaz de enfrentar as maiores dificuldades, encontrar as melhores soluções e tomar as melhores decisões durante o combate.”

Marcus Agostinho observa o aquecimento dos atletas brasileiros na Copa Europeia Sênior de Málaga © CBJ

Potrich observa que o desenvolvimento físico e técnico pode não se traduzir integralmente no desempenho competitivo quando o atleta ainda encontra dificuldades para mobilizar essas capacidades sob pressão.

“Vemos atletas muito técnicos e fisicamente muito fortes, mas que ainda não estão preparados mentalmente. Por isso, esse é um aspecto fundamental para que consigam performar e colocar em prática todas as habilidades que possuem, sejam elas físicas, táticas ou técnicas. Para mim, a questão mental é fundamental.”

Agostinho examina essa prontidão a partir das situações que o judoca precisa administrar ao longo da luta. O placar modifica as decisões necessárias, e a capacidade de perceber essas mudanças deve estar acompanhada de condições para agir.

“O atleta precisa apresentar uma boa variedade técnica e conhecer bem as transições. Especialmente no feminino, é importante que consiga atacar e defender bem nas transições para o ne-waza.”

O gerenciamento do combate aparece, então, como a aplicação desse conjunto de capacidades às necessidades de cada momento.

“Principalmente, acredito que ele precisa saber gerenciar bem todas essas situações. Quando está perdendo, precisa saber como lutar. Quando está vencendo, precisa entender como administrar o combate. Quando a luta está empatada, precisa saber como criar uma vantagem.”

Atletas, comissão técnica e dirigentes comemoram a conquista do vice-campeonato do Mundial Júnior 2025 © CBJ

Para Agostinho, a consistência com que o atleta reúne essas respostas ao longo da competição é um dos elementos que o aproximam da disputa por medalhas.

“Acredito que o equilíbrio entre todos esses fatores é muito importante. Os atletas que conseguem reunir essas características de maneira consistente durante o Mundial geralmente chegam à disputa por medalhas.”

Questionado se essa capacidade poderia ser definida como atitude mental ou visão de combate, o professor preserva a relação entre as diferentes dimensões do desempenho.

“Acho que o atleta realmente precisa ter recursos técnicos para fazer isso e uma boa capacidade física para executar suas ações, mas também precisa conseguir equilibrar tudo mentalmente. Acredito que todos esses aspectos estão envolvidos.”

Reduzir essa prontidão a uma única expressão, conclui Agostinho, deixaria de fora parte do que a comissão procura reconhecer nos atletas: “É algo muito complexo”.

A Confederação Brasileira de Judô conta com o patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e com o apoio institucional do Comitê Olímpico do Brasil (COB).

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