23 de julho de 2026
Ketleyn Quadros se despede do shiai-jô © Gabriela Sabau / FIJ
Há 18 anos, Ketleyn Quadros escrevia uma das páginas mais importantes da história do esporte brasileiro. Nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, a judoca conquistava a medalha de bronze na categoria -57kg e se tornava a primeira mulher brasileira a subir ao pódio olímpico em uma modalidade individual, um feito que ultrapassou os limites do judô.
Até aquele momento, o Brasil já havia conquistado medalhas olímpicas femininas em modalidades coletivas, como vôlei e basquete, mas nenhuma atleta brasileira havia alcançado um pódio individual nos Jogos Olímpicos. A conquista de Ketleyn representou uma ruptura histórica e abriu caminhos para novas gerações de atletas.
Após quase duas décadas dedicadas ao alto rendimento, Ketleyn anunciou sua despedida das competições, encerrando uma trajetória marcada por participações olímpicas, conquistas nacionais e internacionais e uma contribuição permanente para o judô brasileiro.
Nascida em Ceilândia (DF), em 1 de outubro de 1987, Ketleyn Lima Quadros iniciou sua trajetória no judô aos sete anos, conciliando os treinos com a natação. Aos 12 anos, decidiu dedicar-se exclusivamente à modalidade.
Sua formação inicial ocorreu sob orientação do sensei Robert Luis Marques Rodrigues, da Espaço Marques de Taguatinga Sul, em Brasília, responsável também pela formação de atletas como Erika Miranda e Nicole Marques, atual integrante da seleção brasileira.

Paulo Wanderley presta homenagem a Ketleyn Quadros © Anderson Neves / CBJ
Ao longo da carreira, defendeu a Seleção Brasileira por quase duas décadas e participou de três edições dos Jogos Olímpicos: Pequim 2008, Tóquio 2020 e Paris 2024. Na capital francesa, integrou a equipe brasileira que conquistou a histórica medalha de bronze na competição por equipes mistas.
Em competições internacionais, acumulou resultados expressivos, incluindo medalhas em Campeonatos Mundiais, Jogos Pan-Americanos e etapas do Circuito Mundial da Federação Internacional de Judô. Entre os principais feitos estão os títulos do Grand Slam de Brasília, em 2019, e do Grand Slam de Antalya, em 2023.

Paulo Wanderley Teixeira, Rosicleia Campos, Ketleyn Quadros, Andrea Berti, Luiz Bayard e Marcelo Bervian durante homenagem à medalhista olímpica © Anderson Neves / CBJ
Em sua trajetória internacional, Ketleyn disputou mais de 400 combates e conquistou 43 medalhas, oito delas em etapas de Grand Slam, consolidando uma das trajetórias mais longevas e vitoriosas do judô brasileiro.
O encerramento da trajetória competitiva de Ketleyn Quadros recebeu um reconhecimento especial durante a Seletiva Nacional Sênior, realizada em Porto Alegre (RS). A escolha da capital gaúcha teve um significado simbólico, já que a atleta representa a Sogipa, clube que teve papel fundamental em sua caminhada esportiva.
A Confederação Brasileira de Judô preparou uma homenagem reunindo personagens fundamentais da história de Ketleyn Quadros. A celebração foi conduzida pelo presidente da CBJ, Paulo Wanderley Teixeira, e contou com a presença de Luiz Bayard, presidente da Federação Gaúcha de Judô; Marcelo Bervian, presidente da Sogipa; além das senseis Rosicleia Campos e Andrea Berti, treinadoras que acompanharam diferentes fases da trajetória da atleta no alto rendimento e participaram da entrega de um buquê de flores à medalhista olímpica.

Rosicleia Campos e Andrea Berti homenageiam Ketleyn Quadros com flores na despedida da medalhista olímpica © Anderson Neves / CBJ
A presença dos dirigentes e profissionais que fizeram parte da caminhada de Ketleyn reforçou o caráter simbólico da homenagem, celebrando não apenas a medalha olímpica conquistada em Pequim 2008, mas toda uma história construída ao longo de quase duas décadas dedicadas ao judô brasileiro.
Ao entregar a homenagem, Paulo Wanderley relembrou o momento histórico vivido ao lado de Ketleyn nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 e destacou o legado deixado pela atleta.
“Para mim, é um privilégio, porque tive a honra de estar em Pequim 2008, quando a Ketleyn subiu ao pódio para receber sua medalha. A CBJ reconhece uma trajetória marcada por dedicação, resiliência e pioneirismo. Como a primeira mulher brasileira a conquistar uma medalha olímpica em um esporte individual, ela abriu caminhos, inspirou gerações e deixou um legado para o nosso esporte. Agradecemos por representar o Brasil com excelência dentro e fora dos tatamis. Seu nome ficará para sempre gravado na memória e no coração do judô brasileiro.”

Paulo Wanderley Teixeira abraça Ketleyn Quadros durante a homenagem da CBJ © Anderson Neves / CBJ
Emocionada, Ketleyn agradeceu o reconhecimento e fez questão de dividir a homenagem com todas as pessoas que participaram da construção de sua trajetória.
“É um prazer enorme receber essa homenagem. Um pedaço da história que existe em mim está aqui, e me sinto muito honrada e grata por fazer parte da história do judô. Sou grata aos clubes, aos atletas e aos profissionais que acreditaram em mim. Também agradeço às mulheres que vieram antes de mim e começaram quando ainda não podiam. Eu cheguei em um momento em que muitas portas já haviam sido abertas. Minha geração teve mais oportunidades do que a anterior e me sinto privilegiada por isso. Houve muito sacrifício ao longo dessa caminhada, mas quero dizer aos atletas que estão competindo hoje: vale muito a pena. Sei que esta homenagem leva o meu nome, mas ela é uma conquista de todos.”
Com a decisão de encerrar a carreira competitiva, Ketleyn Quadros inicia uma nova etapa da vida, marcada por sonhos pessoais e pelo desejo de continuar contribuindo com o esporte que transformou sua história.
Em entrevista ao ge, a medalhista olímpica revelou que a próxima grande conquista que busca está relacionada à construção de sua família. “Sim, eu tenho esse sonho de ser mãe. Então, se você perguntar minha próxima medalha olímpica, espero que seja a minha família.”

O sorriso de Ketleyn Quadros traduz a emoção da homenagem recebida da CBJ © Anderson Neves / CBJ
Casada com o também judoca olímpico Alex Pombo, Ketleyn encerra a carreira competitiva sem olhar para trás com frustração. As ausências nos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e Rio 2016 não diminuíram uma trajetória marcada por conquistas históricas. Além do bronze individual em Pequim 2008, ela voltou ao pódio olímpico em Paris 2024, com a medalha de bronze na competição por equipes mistas, e ainda teve a honra de ser porta-bandeira do Brasil na cerimônia de abertura dos Jogos de Tóquio 2020.
“Foi outro sonho. Ser a primeira mulher negra a ser porta-bandeira do Brasil foi algo muito especial.”
A menina que deixou Ceilândia, no Distrito Federal, para conquistar o mundo transformou sua trajetória em uma referência para outras mulheres dentro do esporte.
“Eu me sinto muito abençoada por Papai do Céu, por ele me escolher para ser essa pessoa que abre a porteira para que outras meninas tenham oportunidade.”
Após encerrar a trajetória competitiva, Ketleyn não pretende se afastar do judô. A experiência acumulada ao longo de uma carreira internacional deve ser transformada em novas formas de contribuição ao esporte, seja na gestão, no desenvolvimento de projetos ou na formação de jovens atletas.
“Não tem como eu pegar 30 anos de uma experiência, de uma bagagem e guardar em uma caixinha e não usar.”

Rosicleia Campos e Andrea Berti se emocionam na despedida de Ketleyn Quadros © Anderson Neves / CBJ
Para Ketleyn, sua história representa uma conquista coletiva. Em uma modalidade que passou a permitir a participação feminina nos Jogos Olímpicos apenas em 1992, ela ajudou a ampliar espaços e mostrar que o sonho olímpico também pertencia às mulheres.
Após encerrar sua trajetória competitiva, a judoca deixa como principal legado uma história de pioneirismo, superação e inspiração. A medalha conquistada em Pequim 2008 ultrapassou o significado de uma conquista individual e se transformou em símbolo da evolução do esporte feminino brasileiro.
A Confederação Brasileira de Judô conta com o patrocínio oficial do BNDES e o apoio institucional do Comitê Olímpico do Brasil (COB).
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