19 de outubro de 2026
E Tato Grigalashvili projeta o suíço Aurélien Bonferroni nas oitavas de final do Mundial de Baku 2026 © Tamara Kulumbegashvili / FIJ
Seis finais consecutivas de Mundial e quatro medalhas de ouro. O meio-médio Tato Grigalashvili (81kg) construiu uma trajetória que o distingue entre os grandes nomes do judô internacional e faz dele o maior medalhista de ouro em Mundiais da história da Geórgia. Em Baku 2026, tornou-se tetracampeão mundial e ampliou o recorde nacional que já detinha desde a terceira conquista, em 2024.

Tato Grigalashvili olha para o céu em agradecimento a Deus após vencer o suíço Aurélien Bonferroni por ippon no Mundial de Baku 2026 © Tamara Kulumbegashvili / FIJ
Depois de uma campanha exigente e de algum tempo para assimilar o resultado, Grigalashvili falou sobre o trabalho que o levou novamente ao primeiro lugar. A satisfação pela conquista veio acompanhada da confiança de quem reconhece na medalha a consequência da preparação.
“Antes de tudo, preciso agradecer a todos que me parabenizaram. Mas, sinceramente, não estou surpreso. Não sinto que seja algo fora do comum. Tenho trabalhado muito, fazendo tudo o que está ao meu alcance. Dediquei toda a minha energia a esse período de preparação. Fiz o meu trabalho e, para mim, ele precisava levar a esse resultado.”
“Na primeira conquista, tudo era novo. Na quarta, eu já sabia o que precisava fazer.”
A familiaridade com as grandes decisões não diminuiu a alegria de vencer. O georgiano começou no judô aos três anos e, depois de 23 anos na modalidade, continua encontrando na vitória uma emoção que remete à infância.
“É claro que fico feliz a cada vitória, talvez até empolgado como uma criança. O judô é a minha vida. É meu passatempo, meu trabalho, minha vida. Comecei aos três anos e já são 23 anos no esporte. Na primeira conquista, tudo era novo. Na quarta, eu já sabia o que precisava fazer.”

Tato sinaliza o quarto ouro mundial para a arquibancada © Feliciantonio Emanuele / FIJ
Para Grigalashvili, o primeiro ouro mundial representa uma mudança de patamar. Depois dele, o desafio passa a ser sustentar o nível necessário para repetir a conquista.
“A primeira medalha de ouro em um Mundial é muito difícil porque você precisa alcançar um nível em que nunca esteve. Até então, você não era campeão mundial e não tinha aquelas experiências e sensações como referência. Depois que vence, precisa se manter nesse nível para conquistar o ouro novamente, mais uma vez e outra. A primeira é a mais importante.”
O Mundial faz parte de um planejamento cujo principal destino são os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028. Nesse caminho, Grigalashvili carrega experiências distintas de suas duas participações olímpicas: o quinto lugar em Tóquio e a medalha de prata em Paris.
A forma de lidar com a expectativa pelo ouro mudou entre uma edição e outra.
“Todo o trabalho deste ciclo de quatro anos está voltado para os Jogos Olímpicos de Los Angeles. Na minha primeira Olimpíada, em Tóquio, eu só pensava no ouro. Com esse pensamento, perdi não apenas a oportunidade de conquistar o ouro, mas também o bronze. Fiquei em quinto. Em Paris, três anos depois, fiquei mais satisfeito com o resultado. Cheguei à final e sabia que voltaria para casa com uma medalha.”
Em 2024, o georgiano havia estabelecido um desafio particular. A trajetória do azerbaijano Hidayat Heydarov, de outra categoria de peso, servia como referência para uma sequência que reunia os principais compromissos da temporada.
“Eu havia estabelecido um desafio para mim naquele ciclo. Embora Hidayat Heydarov competisse em outra categoria e representasse outro país, ele estava construindo uma sequência de vitórias: Europeu, Mundial e Jogos Olímpicos. Em cada competição, eu lutava um dia depois dele. Já tinha conquistado os dois primeiros ouros e me preparava para fazer o mesmo que ele. Faltou pouco. Na verdade, estou satisfeito por ter conquistado minha primeira medalha olímpica em Paris, mesmo sem ter sido de ouro.”
A prata trouxe uma realização importante, mas também a frustração de não completar uma sequência que considerava especialmente significativa pelo intervalo entre as competições.
“Embora estivesse satisfeito com o resultado individual, fiquei decepcionado por não ter conseguido completar o desafio. O intervalo entre aquelas três competições era muito curto. Era uma oportunidade única de conquistar os três ouros. Talvez alguns atletas busquem essas três conquistas ao longo de toda a carreira, mas eu enxerguei naqueles poucos meses uma grande oportunidade.”
A sequência de finais mundiais também inclui derrotas e a necessidade de encontrar novas respostas para adversários conhecidos. Entre eles, Timur Arbuzov ocupa um lugar importante na análise de Grigalashvili.

O georgiano venceu o rival na decisão do Mundial de Abu Dhabi 2024, mas perdeu os três confrontos seguintes em finais de grandes competições.
“Perdi três finais importantes para Arbuzov: o Europeu de 2025, o Mundial de 2025 e o Europeu deste ano. É claro que ele seria meu principal rival, e eu estava me preparando para enfrentá-lo.”
“Aos resultados que o colocam na história do judô georgiano, Tato acrescenta o aprendizado das derrotas, as mudanças na preparação e o respeito por quem encontra do outro lado da disputa.”
Nesse período, mudanças no comando técnico da seleção georgiana também alteraram a maneira de organizar o trabalho. Grigalashvili relaciona a preparação atual a uma nova orientação adotada pela equipe.
“Antes daquelas finais que perdi, eu me preparava de uma forma completamente diferente da atual. Tivemos mudanças na Geórgia: nosso treinador principal saiu, e o novo chegou com outra maneira de trabalhar. Isso mudou nossa abordagem. Estamos seguindo uma nova direção e passamos a nos preparar de outra forma para as competições.”

Tato no pódio olímpico em Paris 2024 © Feliciantonio Emanuele / FIJ
Arbuzov não estava em Baku. Para Grigalashvili, porém, a ausência do rival não modifica a avaliação sobre as condições em que chegou ao Mundial.
“Se Arbuzov estivesse aqui, eu teria a mesma confiança. Manteria o foco e a atitude mental, porque estava pronto. Não importa quem esteja à minha frente quando sei que fiz o trabalho certo. Talvez fosse necessário um esforço ainda maior, mais energia e muita concentração para enfrentá-lo, mas eu estava preparado.”
A conquista em Baku também deixou uma lembrança que ultrapassa o resultado esportivo. Depois da decisão, Grigalashvili acompanhou uma entrevista do azerbaijano Zelim Tckaev, seu adversário na final, e valorizou a maneira como ele reconheceu a derrota.
“Só depois vi Zelim Tckaev falando em uma entrevista com muita honestidade e franqueza. Ele disse que eu havia sido melhor naquele dia e que não havia desculpas. Dei muito valor àquilo. Quero dizer que tenho um enorme respeito por ele e pelo que falou.”

Pragmático, Tato aponta para a cabeça após a final: preparação e inteligência a serviço da vitória © Gabriela Sabau / FIJ
A avaliação do georgiano sobre o confronto ajuda a dimensionar o peso atribuído aos detalhes da preparação em uma disputa equilibrada.
“A final foi muito equilibrada, e talvez um pequeno detalhe da preparação tenha feito a diferença. Ele é uma boa pessoa, e acredito que nossa amizade será ainda maior daqui para a frente. Agora ele é meu irmão no esporte.”
No dia seguinte à decisão, os dois estavam juntos na sala de aquecimento. Para o georgiano que acabara de conquistar seu quarto ouro mundial, a vitória também havia aberto espaço para uma aproximação com o adversário.
A confiança e a intensidade que Grigalashvili demonstra nos tatamis convivem com uma reflexão cuidadosa sobre o próprio percurso. Aos resultados que o colocam na história do judô georgiano, ele acrescenta o aprendizado das derrotas, as mudanças na preparação e o respeito por quem encontra do outro lado da disputa.
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