13 de março de 2026
Ippon de Ronald Lima (BRA) sobre Gusman Kyrgyzbayev (KAZ) na semifinal do meio-leve na Áustria © Gabriela Sabau / FIJ
O resultado final do Grand Prix da Áustria, disputado em Linz, reafirma uma dinâmica histórica do judô mundial: a permanência do Japão no topo da modalidade e a influência duradoura da escola técnica criada por Jigoro Kano. Berço do judô, o país asiático mantém, geração após geração, o padrão de excelência que nasceu em fevereiro de 1882, quando Kano inaugurou seu primeiro dojô no templo budista Eishō-ji, em Tóquio, com apenas 12 tatamis e um pequeno grupo de alunos. A partir dali surgiu um sistema pedagógico e técnico que, mais de um século depois, continua estabelecendo os parâmetros do judô de alto rendimento no cenário internacional.
Curiosamente, é no Brasil que essa tradição encontrou um de seus territórios mais férteis de continuidade. O país abriga a maior comunidade japonesa fora do Japão e, graças ao processo migratório iniciado no início do século XX, o judô passou a ser ensinado em território brasileiro por mestres diretamente ligados à escola original de Kano sensei, muitos deles formados no Instituto Kodokan, em Tóquio.

Rafaela Silva projeta a italiana Raffaella Lelia em seu combate de estreia em Linz © Gabriela Sabau / FIJ
Ao longo de gerações, professores japoneses e seus discípulos estabeleceram uma linha pedagógica fiel aos princípios do Kodokan, transformando o Brasil em uma das mais sólidas extensões do judô japonês fora do arquipélago asiático.
Hoje essa herança se traduz em uma estrutura impressionante. Estima-se que o judô brasileiro conte com milhões de praticantes distribuídos em dojôs, clubes, associações e escolas. Em um país com 5.570 municípios, calcula-se que mais de cinco mil professores estejam diretamente envolvidos com o ensino da modalidade.
Essa capilaridade ajuda a explicar a presença constante do Brasil entre as principais forças do circuito internacional.
Os resultados obtidos neste início de temporada do World Tour da Federação Internacional de Judô (FIJ) reforçam essa realidade.
No Grand Slam de Paris, primeiro evento internacional da temporada realizado entre os dias 7 e 8 de fevereiro, o Brasil conquistou uma medalha de ouro com Rafael Silva, além de dois quintos lugares com Guilherme Schimidt (90kg) e Larissa Pimenta (52kg), e um sétimo lugar com Leonardo Gonçalves (100kg). O desempenho assegurou ao país a sexta colocação na classificação geral da competição.
No segundo evento do calendário da FIJ em 2026, o Grand Slam de Tashkent, o Brasil encerrou sua participação na 16ª colocação geral.
O principal resultado da equipe veio com Jéssica Lima, medalha de bronze na categoria (57kg). O Brasil ainda obteve três quintos lugares com Gabriela Conceição (52kg), Bianca Reis (57kg) e Karol Gimenez (78kg), além de dois sétimos lugares com Michel Augusto (60kg) e Ronald Lima (66kg).
No Grand Prix da Alta Áustria, disputado em Linz, a equipe brasileira confirmou a força de sua nova geração e terminou a competição na segunda colocação geral do quadro de medalhas.
O Japão liderou o torneio com três ouros, duas pratas e três bronzes, reafirmando sua hegemonia histórica na modalidade. O Brasil terminou na vice-liderança, somando um ouro, duas pratas e três bronzes, resultado que manteve o país logo atrás da potência asiática.
Com essa campanha, a seleção brasileira superou potências tradicionais do judô internacional, como Azerbaijão, Ucrânia, Geórgia e França.
O resultado reforça uma dinâmica que atravessa toda a história recente da modalidade: o Japão como referência técnica global e o Brasil consolidado como uma das principais escolas do judô fora do território japonês.
Esse vínculo entre Brasil e Japão não se explica apenas pelo desempenho esportivo contemporâneo. Ele tem raízes profundas na história da imigração japonesa iniciada no início do século XX.
A partir da chegada dos primeiros imigrantes ao Brasil, em 1908, mestres japoneses passaram a difundir o judô em colônias agrícolas, associações culturais e escolas comunitárias. Alguns desses professores eram formados diretamente no Kodokan e trouxeram consigo não apenas técnicas de combate, mas um sistema pedagógico baseado em disciplina, educação e formação de caráter.
Com o passar das décadas, o judô ultrapassou os limites das comunidades nipônicas e se integrou definitivamente à cultura esportiva brasileira. Clubes tradicionais, associações esportivas e projetos sociais passaram a incorporar a modalidade, criando uma rede de formação que hoje alcança todo o território nacional.
Mais de um século depois da chegada dos primeiros professores japoneses ao Brasil, essa herança permanece viva e pulsante nos tatamis do país.
Nos dojôs das grandes capitais e nas pequenas cidades do interior, milhares de professores seguem transmitindo os princípios técnicos e filosóficos estabelecidos por Jigoro Kano em 1882.
Uma prova concreta de quanto o judô se encontra profundamente inserido na cultura esportiva brasileira está no desempenho olímpico da modalidade. Desde sua estreia nos Jogos, o judô já proporcionou ao Brasil 28 medalhas olímpicas — cinco de ouro, quatro de prata e dezenove de bronze, consolidando-se como a disciplina mais vitoriosa do país no maior palco do esporte mundial. Não por acaso, a primeira medalha olímpica da história do judô brasileiro foi conquistada em 1972, em Munique, por Chiaki Ishii, judoca japonês naturalizado brasileiro — um símbolo perfeito da ponte cultural que ajudou a transformar o Brasil em uma das grandes potências da modalidade.
É por isso que, quando o ranking internacional aponta novamente o Japão no topo e o Brasil logo atrás, o resultado vai além da estatística esportiva.
Ele revela a continuidade de uma tradição. Uma tradição que nasceu em um pequeno dojô de Tóquio, atravessou oceanos e encontrou no Brasil um dos seus mais sólidos territórios de permanência e desenvolvimento, mantendo viva uma escola que, mais de um século depois, continua inspirando o judô mundial.