Prata no Paulista Sub 15, Laressa Tavares escancara o alto nível técnico do judô paulista

Bicampeã brasileira e campeã pan-americana, Laressa Tavares foi vice-campeã paulista Sub 15, em Indaiatuba, em uma final que expôs a força e a consistência técnica do judô paulista © Arquivo

Vice-campeã paulista Sub 15 revela enorme consistência técnica, leitura de combate e um projeto de formação alinhado com o alto rendimento nacional.

Por Paulo Pinto / Global Sports
Curitiba, 26 de abril de 2026

Entre as inúmeras inovações implementadas no judô paulista pela gestão atual, a realização das finais individuais por categoria de peso no Campeonato Paulista se destaca por diferentes aspectos — sobretudo por permitir ao público, às coordenações técnicas e à imprensa uma leitura mais qualificada do estágio técnico em cada uma das categorias.

Laressa em ação no Campeonato Pan-Americano de 2025, reafirmando seu alto nível competitivo no cenário continental © Arquivo

Nesse contexto, as finais do Campeonato Paulista Sub 15, em Indaiatuba, evidenciaram o elevado nível técnico das judocas do peso leve (-48kg): Rhyana Godoy, da Associação Yamazaki de Judô, de São José dos Campos, que conquistou o título, e Laressa Tavares, vice-campeã, que, no âmbito federativo, defende a Associação Namie de Judô e, no circuito escolar, representa o Colégio Placidina, ambas instituições de Mogi das Cruzes (SP).

Laressa exibe o ouro do Campeonato Brasileiro de 2025, em João Pessoa (PB), conquista que garantiu o bicampeonato nacional © Arquivo

Foi uma final de alto nível, marcada pela intensidade, pela resiliência e pela qualidade técnica apresentada por duas judocas formadas em escolas tradicionalmente reconhecidas pela excelência na formação de atletas.

Perfil técnico vencedor

Aos 13 anos, Laressa Tavares constrói sua trajetória no judô a partir de uma base sólida, marcada por disciplina, continuidade e forte vínculo com seus professores. Iniciada precocemente na modalidade, encontrou no esporte não apenas um caminho competitivo, mas também um ambiente de formação pessoal, no qual consolidou valores que hoje se refletem dentro e fora dos tatamis.

“Me chamo Laressa Tavares, tenho 13 anos, nasci no dia 29 de fevereiro de 2012, na cidade de São Paulo. Comecei a lutar com 5 anos, motivada pelo fato de ser muito agitada na escola, o que gerava constantes reclamações aos meus pais. Em um determinado momento, eles decidiram me colocar no judô, e desde então nunca mais parei. Dei meus primeiros passos no Bunkyo, um projeto social da minha cidade, Mogi das Cruzes. Atualmente, treino na Associação Namie de Judô, sob a orientação dos senseis Carlos Eduardo Modesto da Silva, o Cadu, Edson Marques de Souza Filho, o Edinho, todos liderados pelo professor kodansha shichi-dan (7º dan), Paulino Tohoru Namie. Todos eles foram e continuam sendo fundamentais na minha formação como atleta e como pessoa, especialmente nos momentos em que mais precisei. Foi com o sensei Cadu que minha jornada começou, foi com o sensei Cadu que minha jornada começou, e sem eles eu não teria chegado até aqui.”

Laressa Tavares e Rhyana Godoy na final do Campeonato Paulista Sub 15 de 2026 © Arquivo

Identidade competitiva e construção técnica

No aspecto técnico, a judoca apresenta um perfil bem definido, com clareza de identidade competitiva e consistência na execução de sua principal ferramenta de pontuação. Sua construção dentro do shiai-jô revela uma atleta estratégica, que busca controlar o ritmo das lutas e criar oportunidades a partir de movimentação constante e entradas rápidas.

“Meu tokui-waza é o ippon-seoi-nage, técnica com a qual sempre me identifiquei. Lembro que, no meu primeiro campeonato oficial, venci todas as lutas aplicando esse golpe, e, a partir dali, passei a aperfeiçoá-lo cada vez mais. Defino meu estilo de luta como estratégico, buscando impor ritmo com bastante movimentação e entradas rápidas, sempre criando oportunidades para aplicar meu tokui-waza. Considero como meu maior diferencial técnico a minha postura dentro e fora dos tatamis. Procuro agir com humildade, estar sempre aberta a aprender e evoluir.”

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Campeonato Paulista como processo de aprendizado

Na leitura da própria atleta, o Campeonato Paulista ocupa papel central em sua formação competitiva. Mais do que um torneio estadual, a competição se apresenta como um verdadeiro filtro técnico, capaz de acelerar processos, gerar confiança e expor o atleta a um nível de exigência que dialoga diretamente com o cenário nacional.

“Falando sobre o Campeonato Paulista, ele foi decisivo na minha trajetória esportiva, porque me ajudou a crescer como atleta. Foi por meio dele que adquiri mais confiança e experiência. Podemos dizer que foi uma competição que me projetou para o cenário nacional, porque foi ali que comecei a dar um passo nessa direção. Muitos atletas afirmam que é mais difícil ser campeão paulista do que campeão brasileiro, e eu concordo com essa visão. O estado de São Paulo possui muitas escolas fortes, em todas as regiões, e isso eleva muito o nível da competição. É um campeonato de altíssimo nível, onde estão apenas atletas muito bons ou excelentes. Sem soberba alguma, eu acredito que seja mais difícil ser campeão paulista do que brasileiro.”

Emocionada, Laressa agradece a conquista do seu primeiro título brasileiro, em Curitiba, em 2024 © Arquivo

Maturidade competitiva além do resultado

A forma como Laressa Tavares assimilou a derrota na final também revela traços importantes de sua construção no alto rendimento. Longe de qualquer descontrole emocional, a judoca demonstrou maturidade ao equilibrar frustração e análise técnica, reconhecendo o mérito da adversária e, ao mesmo tempo, projetando sua evolução.

“Fazendo a minha leitura da derrota para a Rhyana Godoy na final do Paulista 2026, fiquei triste, é claro, porque queria o ouro, como todos que ali estavam. Mas também fiquei feliz pelo meu desempenho e por saber que perdi para uma adversária muito qualificada. A minha tranquilidade não tem relação com o fato de já estar classificada para o Campeonato Brasileiro, mas sim com o entendimento de que a derrota faz parte do meu crescimento no alto rendimento. Fui para Indaiatuba com o objetivo de ser campeã paulista, mas dessa vez não aconteceu. Sei que o meu momento vai chegar. Também estava tranquila por saber do meu potencial e por já estar garantida no Campeonato Brasileiro 2026. Esse resultado não impacta o meu planejamento para a temporada. Fiz boas temporadas em 2025 e 2026. Sei que tudo o que estou construindo agora será colhido no futuro. Parabenizo a Rhyana, que fez uma excelente luta e soube aproveitar as oportunidades.”

Laressa ao lado do sensei Carlos Eduardo Modesto da Silva, o Cadu, a quem atribui papel central em sua formação nos tatamis © Arquivo

Currículo precoce e trajetória em ascensão

Mesmo com apenas 13 anos, a judoca mogiana já reúne um currículo expressivo, com resultados relevantes em nível nacional e continental. Mais do que os títulos, chama atenção a forma como interpreta sua própria trajetória, atribuindo valor ao processo e às adversidades superadas ao longo do caminho.

“Apesar de ter apenas 13 anos, já acumulo títulos importantes em nível estadual, nacional e continental. Todos tiveram sua importância, mas o mais significativo foi o Campeonato Pan-Americano de 2024, em Varadero, Cuba, onde fui campeã. Para chegar até lá, enfrentei muitas dificuldades. Fui por adesão, ou seja, tive que arcar com todos os custos, e naquele momento não tínhamos recursos suficientes. Eu duvidei, meus pais também, mas nunca abandonamos a fé. Conseguimos, e eu conquistei esse título. Em 2023, fui vice-campeã pan-americana em Lima, no Peru. Em 2024, conquistei o título em Cuba. E em 2025, também em Lima, fiquei com o terceiro lugar. No Campeonato Brasileiro, em 2023, no Paraná, não subi ao pódio, mas em 2024 voltei mais preparada e fui campeã, novamente no Paraná. Em 2025, conquistei o título em João Pessoa, na Paraíba. A participação em três Campeonatos Pan-Americanos me colocou em evidência, e vejo essa projeção como algo muito importante para a minha carreira. Sei que todo o esforço vale a pena. Eu treinei, me preparei e consegui alcançar meus objetivos.”

Laressa ao lado do professor kodansha shichi-dan Paulino Tohoru Namie, referência em sua formação no judô © Arquivo

Rotina de alto rendimento aos 13 anos

Aos 13 anos, Larissa Tavares já cumpre uma rotina de treinos compatível com atletas de alto rendimento, evidenciando o nível de exigência necessário para se manter competitiva no judô paulista e nacional.

A atleta inicia o dia por volta das 5h40. Entra na escola às 7h e encerra o período letivo às 12h30. Após o retorno para casa, por volta das 13h40, almoça, realiza as atividades escolares e reserva um curto período de descanso.

Ainda na classe Sub 13, aos 11 anos, Laressa visita a sede da Shihan Kimonos © Arquivo

A partir das 17h, inicia a preparação física, alternando ao longo da semana entre treinos de musculação — às terças e quintas — e sessões voltadas à movimentação, equilíbrio e preparo físico geral, às segundas, quartas e sextas. Esses treinamentos têm duração média de uma hora a uma hora e meia.

Na sequência, após breve intervalo, Larissa segue para o dojô, onde realiza treinos técnicos de judô de segunda a quinta-feira, das 19h às 21h30, e às sextas-feiras, das 19h às 21h. Em 2026, a atleta passou a incluir também o jiu-jitsu em sua rotina, com foco no aprimoramento do ne-waza, com treinos ao longo da semana e reforço aos sábados, quando não há competições.

Laressa ao lado de William Lima, vice-campeão olímpico em Paris 2024, ambos formados no mesmo dojô de Mogi das Cruzes, sob a orientação do professor Paulino Tohoru Namie © Arquivo

Rede de apoio e estrutura multidisciplinar

A construção da trajetória de Larissa Tavares também passa por uma rede de apoio que envolve parceiros, profissionais e familiares, fundamentais para sustentar a rotina de alto rendimento.

Atualmente, a atleta conta com o apoio das empresas Unity Esquadrias, Pinta Mundi (Mogi das Cruzes) e Tavares Paint, que contribuem com inscrições e custos de viagens. Na preparação física, recebe suporte da academia Opção Fitness, sob orientação do professor de Educação Física Francisco Filho, o Chiquinho, da E3 Training, com o professor Du, e da equipe de jiu-jitsu Jones Fort Team.

Laressa Tavares (Sub 15, Associação Namie de Judô) ao lado do pai, Gil Tavares, e da irmã Ana Tavares (Sub 21, Clube Athletico Paulistano), celebram os ouros conquistados ontem, no Open Ajinomoto, realizado em Mauá © Arquivo

Na área de saúde, é acompanhada pela Clínica Métier, com a nutricionista Amanda Valente e a ginecologista Dra. Sueli Tapigliani. Para deslocamentos nacionais e internacionais, conta com o apoio da T4 Turismo.

Além disso, familiares e amigos desempenham papel essencial nos bastidores, contribuindo para que a atleta consiga manter uma rotina exigente e, ao mesmo tempo, sustentar o nível de desempenho apresentado nas competições.

Laressa no pódio do Campeonato Pan-Americano Sub 15 de 2024, em Lima, no Peru, onde conquistou a medalha de bronze © Arquivo

Projeção nacional e metas para a temporada

Classificada para o Campeonato Brasileiro, Laressa Tavares projeta a sequência da temporada com ambição clara e metas bem definidas. Inserida em um ambiente de alta exigência, a judoca demonstra consciência do peso competitivo que acompanha o próximo desafio, ao mesmo tempo em que revela segurança no trabalho que vem sendo desenvolvido ao longo dos últimos ciclos.

“Já estou classificada para o Campeonato Brasileiro e minhas expectativas são muito altas, porque estou treinando bastante para buscar o tricampeonato. A competição será realizada em Aracaju, Sergipe, no mês de maio. Lidar com essa responsabilidade não é fácil, mas sempre tive pessoas ao meu lado que nunca soltaram a minha mão, como meus pais e meus senseis. Sei do meu potencial. Meus principais objetivos para a temporada são terminar o ano na liderança do ranking, ser campeã pan-americana, campeã da seletiva nacional — que abre caminho para o Sub 18 — e também conquistar o título dos JEBS. Sei que tudo isso depende de muito treino, e é isso que venho fazendo. Vou correr atrás dos meus sonhos.”

Laressa campeã brasileira de 2025 © Arquivo

Visão de futuro

A construção de objetivos a médio e longo prazo também evidencia uma atleta que já projeta sua trajetória em nível internacional. Com metas bem estabelecidas, Laressa não esconde o desejo de representar o Brasil em grandes palcos e alcançar o topo do esporte.

“Quero chegar às Olimpíadas e me imagino defendendo a seleção brasileira em grandes eventos internacionais. Afinal, não há honra maior do que representar o Brasil. Meu maior sonho no esporte é ser campeã olímpica e também ingressar na Marinha.”

Laressa no pódio do Campeonato Pan-Americano de 2024, em Varadero, Cuba, onde conquistou o título continental © Arquivo

Base educacional e suporte estrutural

Fora do ambiente competitivo, a judoca encontra no suporte educacional e nos parceiros um dos pilares para a continuidade de sua trajetória. Em uma fase em que os custos ainda são integralmente assumidos pelos atletas, o apoio institucional se torna determinante para a manutenção do alto rendimento.

“Sou aluna do Colégio Placidina, onde sou bolsista. A escola sempre me apoiou dentro do possível. Meu judogi preferido para competir é o Grand Prix da Shihan — ele está presente em todas as minhas conquistas e é meu companheiro inseparável. Contar com parceiros e apoiadores é essencial, porque no Sub 15 todas as despesas são por conta dos atletas. Ter esse suporte faz toda a diferença na trajetória.”

Laressa no pódio do Campeonato Pan-Americano Sub 15 de 2023, em Lima, no Peru, onde conquistou a medalha de prata e o vice-campeonato continental, aos 11 anos de idade © Arquivo

Formação humana além do esporte

A formação proporcionada pelo judô também se reflete diretamente na construção pessoal da atleta, que enxerga na modalidade um instrumento de disciplina e desenvolvimento humano, projetando seu futuro dentro e fora dos tatamis.

“Fora dos tatamis, pretendo integrar o Corpo de Fuzileiros Navais. Sempre foi um grande sonho defender o Brasil também por meio da Marinha. Nos tatamis, minhas metas para 2026 são ser campeã brasileira, campeã da seletiva nacional e campeã pan-americana. O judô, por meio do sensei Namie e de todos os meus professores, me ensinou disciplina e humildade. Acredito que essa formação vai me ajudar a ser uma pessoa melhor no futuro.”

Derrota como ferramenta de evolução

Mesmo diante de um currículo expressivo, a forma como Laressa Tavares absorve os resultados — inclusive as derrotas — reforça sua maturidade competitiva e sua capacidade de evolução dentro do alto rendimento.

“Queria muito o ouro no Paulista, mas entendo que tudo tem um propósito e acontece no tempo de Deus. Foi difícil não conquistar o título, mas sei que coisas maiores estão por vir. No próximo ano, voltarei ainda mais forte para buscar esse ouro no Sub 15.”

Laressa acumula resultados expressivos: campeã, vice e medalhista de bronze pan-americana, bicampeã brasileira, tricampeã paulista, pentacampeã da seletiva para o Campeonato Brasileiro, pentacampeã do Ajinomoto Open de Judô e bicampeã da Copa São Paulo, entre outras conquistas que consolidam sua trajetória como uma das atletas mais promissoras de sua geração.

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