09 de outubro de 2026
Sheldon Franco-Rooks, uma das vozes mais reconhecidas das transmissões internacionais de judô © Gabriela Sabau
A Revista Budô apresenta aos leitores brasileiros uma reportagem de Nicolas Messner, jornalista da Federação Internacional de Judô (FIJ), sobre Sheldon Franco-Rooks, uma das vozes mais conhecidas das transmissões internacionais da modalidade. Com sensibilidade e atenção às relações humanas que sustentam essa trajetória, Messner revela o homem por trás do microfone e revisita as amizades, as descobertas e as oportunidades que fizeram do judô uma parte inseparável de sua vida.
Há anos, quem acompanha o Circuito Mundial de Judô reconhece sua voz. Ao lado do amigo e companheiro de transmissão Neil Adams e de outros comentaristas, Sheldon leva à JudoTV clareza, entusiasmo e um profundo conhecimento da modalidade. Conhece os atletas, seus percursos, suas qualidades técnicas, suas histórias e, muitas vezes, suas famílias. Essa proximidade se expressa em comentários conectados ao que acontece nos tatamis, alimentados por uma convivência construída ao longo de décadas.
O caminho até os microfones, porém, nunca foi planejado. Começou com a curiosidade de um menino, um centro esportivo do outro lado da rua e um equívoco que acabaria mudando sua vida.
“Não foi um acidente”, diz Sheldon, antes de sorrir ao recordar a infância. “Nos anos 1970, os filmes de kung fu estavam por toda parte, com Bruce Lee e tudo aquilo. Na escola, todos nós queríamos experimentar as artes marciais, mas éramos muito novos para assistir aos filmes por causa da classificação etária.”
Perto de casa, ele observava pessoas entrando em um centro esportivo com uniformes brancos e faixas. Em uma manhã de sábado, resolveu atravessar a rua e descobrir o que acontecia ali. Imaginava ter encontrado um clube de kung fu. Era, na verdade, um clube de judô. E estava lotado.
“Eles não estavam aceitando iniciantes”, lembra. “Então, disse à senhora que eu já tinha praticado judô.”

Sheldon Franco-Rooks com o japonês Hiroyuki Hirano © Gabriela Sabau
A primeira aula começou com aquecimento e exercícios para aprender a cair. Depois vieram as projeções. Aos poucos, Sheldon evoluiu, enquanto a curiosidade inicial se transformava em um interesse que o acompanharia por toda a vida. Na busca por outro lugar para treinar, chegou ao Budokwai, a tradicional instituição londrina responsável pela formação de gerações de judocas britânicos.
Sem internet, o acesso ao universo das competições dependia de revistas e visitas à biblioteca. Sheldon lia uma publicação chamada JUDO e acompanhava os resultados das categorias de base. Entre os nomes que encontrava naquelas páginas, um despertava sua atenção: Neil Adams.
“Um dia, o treinador nos disse que um novo rapaz passaria a treinar conosco. Conheço Neil desde os meus 15 anos. Ele foi uma grande inspiração.”
A convivência aproximou os dois, embora seus caminhos como competidores tenham seguido rumos diferentes. Neil avançou rapidamente no cenário nacional e internacional. Sheldon, por sua vez, reconheceu cedo as dificuldades que encontraria no alto rendimento.
“Eu ficava nervoso. Não tinha as mesmas habilidades. Sabia que competir naquele nível não era algo em que eu teria sucesso.”
Ao concluir os estudos, Sheldon começou a trabalhar na British Telecom, a companhia telefônica britânica. Como falava alemão, foi encaminhado para o atendimento de chamadas internacionais. A função abriu uma possibilidade inesperada de ajudar os amigos que viajavam com a seleção.
“Eu conseguia ligar para os hotéis onde a equipe estava hospedada. Podia fazer e receber chamadas. Colocava meus amigos da seleção britânica em contato com suas famílias e seus amigos, gratuitamente.”

Sheldon Franco-Rooks durante o Campeonato Mundial de Judô de Veteranos de 2026, em Sarajevo © Gabriela Sabau
A familiaridade com o judô facilitou sua aproximação com atletas e treinadores. Vieram convites para estágios de treinamento e oportunidades de acompanhar de perto um ambiente ao qual talvez não tivesse acesso por outros caminhos.
Nesse convívio, conheceu personagens que se tornariam referências para a modalidade, entre eles Charles Palmer, figura central do judô britânico que também presidiu a FIJ. Seus amigos conquistaram medalhas em Campeonatos Mundiais e Jogos Olímpicos. Depois de encerrarem as carreiras competitivas, muitos assumiram funções de gestão no judô britânico, na União Europeia de Judô ou na federação internacional. Sheldon continuou próximo, como parte dessa família que se ampliava.
Outra experiência de sua vida acabaria encontrando espaço nesse universo. Durante os anos de escola, estudou música. Mais tarde, trabalhou em uma fundação musical, onde apresentava os artistas antes de suas entradas no palco.
Densign White, que o conhecia bem e viria a ocupar a direção esportiva da União Europeia de Judô, percebeu que aquela experiência poderia contribuir para os eventos da modalidade.
“Densign me disse: ‘Acho que você pode fazer isso no judô e ajudar a tornar as apresentações mais profissionais no circuito europeu’. Não era um trabalho remunerado, mas eu já fazia parte daquela família.”
O início nas transmissões surgiu durante uma competição europeia. Ao passar pela mesa técnica, Sheldon viu alguns monitores e perguntou o que estava acontecendo. O evento estava sendo transmitido com o som ambiente do ginásio, sem ninguém para comentar as lutas.
“Peguei um fone de ouvido e um microfone e comecei a comentar ao vivo. Foi assim, por acaso, que tudo começou.”

Sheldon Franco-Rooks ao lado de Neil Adams, amigo desde a adolescência e companheiro nas transmissões © Gabriela Sabau
Era por volta de 2003. A iniciativa cresceu de maneira contínua e ganhou novos companheiros. Neil Adams, já conhecido por sua participação em programas com os melhores momentos das competições, passou a integrar os comentários ao vivo. Annett Böhm, Loretta Doyle e Dennis Van der Geest também contribuíram para essa trajetória.
Gradualmente, o trabalho passou a fazer parte das transmissões da Federação Internacional de Judô e se desenvolveu até chegar à plataforma global JudoTV.
A experiência acumulada diante dos microfones se apoia em uma relação com a modalidade que começou muito antes da primeira transmissão. Ao falar sobre o espaço que conquistou, Sheldon atribui um valor especial aos vínculos construídos nesse percurso.
“É impossível para alguém do Reino Unido ter esse tipo de influência e acesso. Hoje, posso dizer que o mais importante é o sentimento de pertencimento, de fazer parte da família do judô.”
Essa família, em sua compreensão, inclui mães, pais, irmãos e irmãs. Pessoas com diferentes papéis, unidas pelo objetivo de contribuir para o desenvolvimento da modalidade.
Nas transmissões, Sheldon encontra uma oportunidade de compartilhar o que aprendeu com espectadores de diferentes níveis de conhecimento. O alcance da JudoTV permite que a experiência das grandes competições chegue também a quem vive o judô em outros espaços.
“Quanto mais o tempo passa, mais compreendo o privilégio de fazer parte disso. Não se trata apenas do judô de alto nível, mas do que as pessoas podem encontrar em nosso esporte em todos os níveis. Todos que assistem à JudoTV podem aprender alguma coisa, e é isso que procuramos fazer.”

Sheldon Franco-Rooks integra a equipe de comentários do Campeonato Mundial ao lado de Dennis Van der Geest, Loretta Doyle e Neil Adams © Gabriela Sabau
É nessa possibilidade de tornar a modalidade compreensível que ele situa a responsabilidade de quem acompanha as lutas ao microfone.
“Somos o elo entre o mais alto nível e aqueles que talvez nunca cheguem até ele, mas precisam compreender o que está acontecendo.”
Sua história revela possibilidades que o judô oferece para além da carreira competitiva. A curiosidade de uma criança diante de um centro esportivo abriu caminho para amizades, aprendizado e uma atividade profissional que ela não poderia imaginar naquele primeiro sábado.
O sentimento de família de que Sheldon fala nasceu dessa convivência. Entre treinos, viagens, conversas e transmissões, encontrou um lugar ao qual pertencer e uma maneira de contribuir. Hoje, sua voz ajuda pessoas de diferentes partes do mundo a compreender e acompanhar o esporte que deu direção à sua própria trajetória.
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